Gulbenkian aposta na formação de crianças. “Parece que mundo desaparece”

Gulbenkian aposta na formação de crianças.

Apoiar a aprendizagem de crianças e jovens tem sido uma aposta a longo prazo da Fundação Calouste Gulbenkian, seja na região do Tâmega e Sousa ou em bairros da Área Metropolitana de Lisboa.

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28/06/2026
por

Lusa

O maestro finlandês Hannu Lintu orienta o ensaio regular da Orquestra Gulbenkian perante uma centena crianças e jovens, estudantes do 5.º ao 12.º anos em escolas da região do Tâmega e Sousa.

 

“Parece que o mundo para eles desaparece quando estão a tocar”, comenta Luana, que, aos 13 anos, alimenta o sonho de tocar violino.

É a primeira vez de Luana – e de todos os outros – na Fundação Calouste Gulbenkian, que assinala este ano 70 anos e que está, desde fevereiro, a apoiar 150 alunos de escolas do Tâmega e Sousa nas disciplinas de Inglês e Matemática, disponibilizando mentores nos estabelecimentos para trabalhar estratégias de aprendizagem.

As seis horas extra de aulas oferecidas pela iniciativa “Gulbenkian Aprender” têm ajudado Luana, aluna de 7.º ano numa escola de Penafiel, sobretudo no raciocínio matemático e na pronúncia e gramática do inglês.

Também bolseiro do programa, que visa promover a igualdade de oportunidades no acesso à educação, Leonardo, 16 anos, nunca tinha visto uma orquestra ao vivo, mas mais fascinado ficou com o Centro de Ciência Viva que visitaram, no âmbito do campo de férias que os levou a Lisboa durante uma semana – uma estreia na capital para grande parte do grupo.

Aluno do 10.º ano, em Felgueiras, já conseguiu “subir de novo” a nota de inglês, disciplina a que tem “muitas dificuldades”, e a mentoria também o está a ajudar a decidir que curso seguir mais à frente.

Mas o objetivo da iniciativa não é só ajudar nas notas — é também proporcionar outras experiências.

“Queremos muito levá-los a conhecer novas pessoas, novas cidades”, assinala Gonçalo Aires, coordenador da “Gulbenkian Aprender”, contando à Lusa que um dos jovens do grupo que acompanhou a Lisboa, residente em Baião, a hora e meio do Porto, acaba de ver o mar pela primeira vez.

“O nosso compromisso para com o território é acompanhar estes jovens desde o momento em que [se] iniciam na iniciativa até ao final do 12.º ano”, explica. Ou seja, quem começar no 5.º continuará durante os próximos oito anos, até terminar a escolaridade obrigatória.

“Estes alunos foram escolhidos pelas escolas por serem alunos que têm capacidade e têm potencial para aprender muito mais”, destaca Pedro Cunha, autor e gestor do programa “Gulbenkian Aprender”.

É na zona do Tâmega e Sousa que está a maior concentração de alunos beneficiários da ação social escolar, assinala, acrescentando que 85% dos jovens que visitaram a Gulbenkian há dias “vivem em famílias cujo rendimento anual é inferior a sete mil euros”.

Os baixos recursos económicos resultam em baixos recursos sociais, culturais e educativos, que colocam a probabilidade de virem a concluir o ensino superior nos 10%, quando esta aumenta para 76% em famílias sem essas limitações. Este intervalo da desigualdade na conclusão do ensino superior em Portugal é dos mais elevados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

“O percurso escolar destes alunos continua a ser dependente das condições e dos recursos das famílias” e, “se nada for feito, 90% destes alunos não vão sequer concluir o ensino superior, apesar de serem alunos cheios de potencial”, aponta Pedro Cunha.

Portugal — realça — “é um país ainda muito marcado por desigualdades” e a Gulbenkian “tem vindo a fazer um esforço continuado para ter impacto em todo o território nacional”.

A abordagem adotada nesta iniciativa-piloto assenta numa “intervenção integrada, sistemática e muito intensiva”.

“A nossa ideia é que esta intervenção possa apoiar múltiplas replicações, em muitas outras zonas do país que também precisam muito, onde há muitos jovens e crianças que, de facto, quando entram na escola amanhã, não têm as mesmas oportunidades que os outros”, constata o gesto da iniciativa, sem avançar com futuras geografias.

Entretanto, a Gulbenkian presta apoio também nas suas proximidades, em bairros periféricos da Grande Lisboa.

No “Centro de Estudo Gulbenkian” do Zambujal (Amadora), Nicole, de 11 anos, e Kevin, de 12, preparam a visita de estudo a Madrid, um prémio pelos resultados escolares.

“Os explicadores começaram a dar mais técnicas, começaram a explicar melhor, comecei a entender melhor as matérias e comecei a ter mais resultados e melhores”, conta Nicole.

Também Kevin melhorou “a tudo”, no caso Português, Inglês e Matemática, as disciplinas para as quais recebem explicações extra no centro de estudo: “Dão-nos fichas para fazer e, se errarmos, [é] para fazer de novo […]. Para mim, errar é mais importante do que acertar à primeira.”

Inês, 17 anos, está a terminar um curso profissional, mas quer seguir para a faculdade e estudar Psicologia.

Sentiu “um grande apoio” para consolidar a matéria para os exames do 12.º ano. “Ajudam-nos muito a tirar dúvidas e a complementar o nosso conhecimento”, descreve, elogiando a flexibilidade do centro de estudo e poder marcar as explicações diretamente com os professores, que, além disso, lhe foram trazendo “coisas” que ela nunca iria procurar, porque não conhecia sequer.

Projeto-piloto que arrancou em novembro, os “Centros de Estudo Gulbenkian” escolheram três bairros da Área Metropolitana de Lisboa: Zambujal, Padre Cruz (freguesia de Carnide, fora do centro da cidade de Lisboa) e Vale da Amoreira (Moita, já no distrito de Setúbal).

No caso do Zambujal — o bairro que tem estado nas notícias desde o assassinato de um seu residente, o cabo-verdiano Odair Moniz, por um agente policial, em outubro de 2024 –, a Gulbenkian desafiou a CooperActiva a “dar enquadramento” ao centro de estudo.

“Parece que todas as pessoas que aqui vivem são más pessoas, não é? E acho que este Centro de Estudo Gulbenkian veio mostrar um bocadinho o contrário, até porque tem permitido também sair muito nas notícias e dar uma imagem muito positiva de quem cá vive, e sobretudo das crianças e jovens”, ressalva Ana Paula Silva, assistente social com 30 anos de trabalho no bairro.

Focada na promoção do sucesso escolar, a CooperActiva assegura o projeto da Gulbenkian, que abrange 30 crianças e jovens, apostando nos ciclos de transição (4.º, 6.º, 9.º, 11.º e 12.º anos).

Mas o apoio vai além do ano letivo, a terminar: “Era muito importante manter alguma rotina, sobretudo porque em termos de oferta aquilo que estas crianças e jovens têm é pouca.”

Assim, mantêm-se as explicações, ainda que “um bocadinho mais leves” e “de uma forma mais pedagógica”, mas sempre que possível para “consolidar e trabalhar conteúdos”.

Escolheram fazer uma revista, que terá conteúdos em português, inglês e matemática, e terão também laboratórios de rádio e fotografia e sessões numa escola de dança, o que lhes vai permitir “ter um contacto mais diversificado com a questão da cultura, com a questão da expressão artística, […] com atividades fora da sua rotina”.

Estudantes dos três Centros de Estudo Gulbenkian vão visitar Madrid, em julho, “um prémio pelo esforço que fizeram durante o ano”.

No final de uma sessão orientada para fixar algumas regras e antecipar cenários, Ana Paula Silva recorda: “São jovens que quase nenhum deles saiu para fora de Portugal. E também não têm muita experiência do que é sair para fora do bairro.”

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